sexta-feira, março 28

We are nowhere and it's now...

"-Ela parece distante, talvez seja porque está pensando em alguém. (...) Um garoto com quem cruzou em algum lugar e sentiu que eram parecidos.
-Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.
-Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
-E ela? E a bagunça da vida dela? Quem vai pôr ordem?"


14:30
Numa rua amarela-acizentada, dois estranhos se deparam e se olham por alguns segundos. Ela, garota-querida-filha-idiota, perturbada por lembranças. Ele, garoto-querido-filho-babaca, perturbado por angústias. Entram no mesmo prédio. Mesma hora, salas diferentes.

Olhos borrados, cabelo sujo e molhado, roupa e pele exalando cheiros que não são meus. Cansei de cantar glórias pela minha baixeza. E me alertaram. Não seja boba, não continue mentindo pra você mesma que o amor é sempre cruel. Eu tenho agido como uma estranha, eu tenho sido uma estranha.
E então, garota, me diga onde você está agora? (porque você e eu não estamos em lugar algum).
E então, querida, me diga onde você está agora? (mas se não me disser, tudo bem, minha conta bancária vai aumentar independente do seu monólogo ou do seu silêncio.)
E então, minha filha, me diga, por favor, onde você está agora? (porque você nasceu de mim e é minha obrigação lhe ajudar - ou pelo menos fingir que me importo).
E então, sua idiota, onde está você nesse seu mundinho amarelo? Onde estou, onde estou?

E tudo se vai. Mesmo com a barreira, as lembranças continuam lá, não é garota-querida-filha-idiota? E num fluxo contínuo passam pela sua cabeça e lhe perturbam até mesmo quando você está comendo um sanduíche no bar da esquina.

Garota, você não está em lugar algum. (e faria alguma diferença se estivesse em algum lugar?)
Querida, você não está em lugar algum. (seria bom se, na próxima consulta, você trouxesse o pagamento do mês!)
Minha filha, você não está em lugar algum. (e talvez parte da culpa seja minha... mas uma parte muito ínfima. Mesmo.)
Sua idiota, você não está em lugar algum. (e o seu mundinho se desmorona todo como um sorvete de banana num dia quente de verão.)



Olhos ardidos, cabelo desarrumado e mal cortado, roupa e pele exalando cheiros que não são meus. Estou exausto de contar minhas vilezas como se delas me orgulhasse. E me avisaram. Não seja tão mesquinho, pare de interpretar a vítima de um amor que nem sempre é cruel. Eu tenho agido como um estranho, eu tenho sido um estranho.
E então, garoto, me diga onde você está agora? (porque você está no meu coração... por essa semana, pelo menos.)
E então, querido, me diga onde você está agora? (porque sua consulta está quase terminando e eu preciso encontrar minha amante.)
E então, meu filho, me diga, por favor, onde você está agora? (porque não faço nada além de cuidar de você... e não posso fracassar nisso também.)
E então, seu babaca, onde você está nesse seu mundinho acizentado? Onde estou, onde estou?

E nada do que ele faz parece ser suficiente para fazer a angústia ir descarga abaixo. Nada é constante. E você não tem conseguido dormir á noite, não é garoto-querido-filho-babaca? E mesmo quando tudo está calmo, como num susto, aquela angústia aparece e tira a graça de se remexer ao som de "doom da da di da di doom" num lugar qualquer com uma companhia qualquer.

Garoto, você não está em lugar algum. (irei chorar um coração partido mas amanhã já terei seguido em frente.)
Querida, você não está em lugar algum. (será que ela vai mesmo se separar pra ficar comigo? Garoto idiota, vem aqui e não fala nada!)
Meu filho, você não está em lugar algum. (e talvez eu realmente seja um fracasso em tudo que faço. Como posso exigir algo diferente de você?)
Seu babaca, você não está em lugar algum. (e o seu mundinho acizentando entra em colapso assim como uma criancinha perdida dos pais em um supermercado.)


15:40
Fim da consulta.
Esperam, lado a lado, o elevador. Mentalmente, perguntam-se: "Onde estará ele/ela agora? Será ela/ele tão parecido comigo quanto parece ser?"
Térreo.
A garota-querida-filha-idiota vai para a esquerda, rumo à sorveteria.
O garoto-querido-filho-babaca toma o caminho da direita, rumo ao supermercado.
Não olham para trás. Não seria o mesmo que olhar para lugar algum?


Jamais se encontraram novamente.
O destino é um escárnio.
E o disco deles está arranhado na mesma parte, da mesma música.


"But if you stay too long inside my memory
I will trap you in a song tied to a melody
And I will keep you there so you can't bug me."





domingo, março 16

(3) Peças Perdidas

Henrique já estava lá quando Lívia chegou. Ele continua o mesmo, pensou ela. Um pouco envelhecido, é verdade, mas, ainda assim, o olhar é o mesmo daquele Henrique que eu tanto amei. Silenciosa, sem nenhum olhar ou sequer uma palavra, postou-se ao lado dele naquela sala apinhada de pessoas - algumas com rostos conhecidos que a faziam lembrar de um passado que ela sempre quis esquecer... mas que nunca conseguiu.
- E então, como foi que você ficou sabendo?
- A irmã dele me ligou. Ela achou que eu deveria saber. E você?
- Eu li no jornal. E decidi vir, mesmo sem ser convidado. Bem, acho que não existe convite pra essas coisas, não é? Ainda mais quando anunciam no jornal... quando tornam público assim.
- Ele se tornou uma pessoa pública, você bem sabe. Uma pessoa influente, importante pra sociedade. Se fosse com a gente, isso aqui estaria vazio.
- É, eu sei... mas pelo jeito você continua se subestimando, não é? Você sempre pôs tudo a perder com essa sua mania estúpida de inferioridade. Você sempre o venerou, sempre o achou melhor do que a gente.
- Eu estou apenas comentando que ele conseguiu o que queria. Ele se tornou uma pessoa importante. Eis tudo. E também não pretendo ficar discutindo as suas opiniões sobre mim. Nem sei por que estou aqui do seu lado agora. Não sei por que ainda insisto em me colocar nessa situação.
- Você sabe muito bem porquê. Você não consegue nem sustentar o olhar quando conversa comigo. Nem após todos esses anos... me diz, você se arrependeu alguma vez?
- Eu não entendo a relevância dessa conversa agora. Se eu me arrependi alguma vez? É óbvio que sim, todas as decisões difíceis tomadas na minha vida me atormentaram com um "e se..." em algum momento. Mas é aquela história, o tempo não volta.
- Que merda, Lívia, você continua com esse conformismo barato. O tempo não volta... é, não volta mesmo. Mas a gente podia ter feito algo, não acha? Sim, eu sei que nada seria como antes... mas talvez fosse até melhor. Você chegou a parar pra pensar nisso em alguma momento dessa sua vidinha cômoda e medíocre? O que poderia ter sido? Nós três...
- É incrível como você simplifica as coisas, Henrique! E o que a gente podia ter feito, me diz?
- Não sei, isso é algo que a gente teria descoberto juntos. Isso é algo que você poderia me dizer se contasse o que realmente aconteceu naquele dia em que você bateu na minha porta e me mandou esquecer que o Fabrício tinha feito, em algum momento, parte da minha vida.
Lívia olhou pra Henrique e, por uma fração de segundo, compreendeu o que ele quis dizer. Mas essa compreensão evaporou-se rapidamente quando ela contemplou o rosto calmo e bonito de Fabrício. Não, eles não poderiam ter descoberto juntos. Não, ela não poderia contar o que tinha realmente acontecido.
- Eu só queria não ter essa sensação entende? Eu nunca pensei que o "tarde demais" fosse acontecer. Não com a gente. Não comigo e com o Fabrício.
Novamente, por uma fração de segundo, Lívia compreendeu Henrique. Até ensaiou um gesto de carinho, mas ele dissolveu-se no ar quando ela contemplou, mais uma vez, o rosto calmo e bonito de Fabrício. Realmente, era tarde demais.
- Eu liguei pra ele há uns dois anos. Era meu aniversário e eu estava cansado de esperar que ele fosse me ligar, me procurar, sei lá... Disse pra ele que eu sentia muito por ter agido daquela maneira, por ter exigido uma atitude mais concreta dele. Por ter xingado ele de covarde. Ele ficou em silêncio enquanto eu falava por uns vinte minutos. Porra, era uma ligação internacional, e eu sempre fui um falido, cê sabe. Mas ouvir "eu também sinto saudades" no final da ligação fez tudo valer a pena. E não estou falando só do custo daquela ligação... tô falando daquilo que tínhamos.
-Você é um sonhador, Henrique. Você sempre traçou grandes planos, mas sem ambição. Viajar o mundo sem compromisso, aproveitar a juventude... você, eu e Fabrício. Sabe, eu acho que eu realmente teria gostado se tivesse dado certo. Nada mais me importava no mundo além de vocês dois. Um quebra-cabeça de três peças, lembra? Mas o Fabrício, apesar de ás vezes ser o mais empolgado, queria estabilidade. Ele planejava, brincava... mas pra ele era só sonho. Ele era inteligente demais pra sair por aí feito um aventureiro. Ele sempre foi "o rapaz de futuro brilhante". E nós dois... acho que de qualquer maneira, não teríamos feito parte desse fututo brilhante.
Henrique achava que Lívia estava completamente errada, mas se sentia triste e cansado demais para discutir isso com ela. É claro que eles faziam parte do futuro brilhante de Fabrício. E por que não fariam? Ele se recusava a acreditar que Fabrício os rejeitaria algum dia. Era ele quem tinha fugido, era ele que tinha sido o escolhido pra ir embora. Era ele quem tinha aceitado partir, quando, na verdade, deveria ter insistido em ficar.
- Por que vocês não deram certo? Eu tinha certeza que vocês iam se casar, que tudo ia ser feito como a gente tinha decidido que ia ser... eu deixei o caminho livre pra vocês dois, Lívia. Eu abdiquei de estar junto de vocês, eu sabia que ia ser melhor assim, ia ser o certo pra carreira do Fabrício. Nos dois anos que a gente passou juntos depois disso, em nenhum momento você me contou o que tinha dado errado no nosso plano. Eu preciso saber, Lívia...
Uma movimentação começou no local. As pessoas começaram a ser direcionar pra algum outro lugar, dois rapazes vestindo a mesma roupa se aproximaram de Fabrício e o retiraram dali, pedindo, timidamente, licença a Lívia e Henrique, que estavam extremamente próximos de Fabrício... tão perto e tão absortos na conversa que nem reparam nos olhares espantados e de reprovação que recebiam.
- Lívia, a missa vai começar. Henrique, tudo bem?
Henrique ficou paralisado ao ouvir aquela voz. Continuava doce, mas trazia um certo tom que o desconcertava. Virou-se, temendo encarar as duas ao mesmo tempo.
- Luíza, acho meio complicado dizer que está tudo bem nessa situação.
- É mesmo. A cerimônia vai começar. Sintam-se á vontade pra acompanhá-la. Mas não esperem que eu chame vocês pra prestar alguma homenagem.
Lívia e Henrique, sem se olharem, seguiram Luíza. Engoliam aquelas palavras ácidas com dificuldade.
-Lívia, você vai me contar o que deu errado entre vocês dois? Se tivesse dado certo, tudo teria sido diferente.
-Não acho que teria sido tão diferente assim, Henrique... mas se você precisa tanto saber, eu te conto depois da cerimônia.
Aliviado e, ao mesmo tempo, preocupado, Henrique entrou na capela. Finalmente, iria saber por que as três peças daquele quebra-cabeça não tinham se encaixado.

terça-feira, fevereiro 26

Assunto: blábláblá...

Rotina. Semana que vem, volto a ela.
Na época de cursinho, tive que fazer uma redação sobre rotina. O ponto principal era se posicionar contra ou a favor se ter uma rotina. Minha posição era o meio termo, mas ter uma opinião "em cima do muro" não era um ponto a favor no vestibular. Tive que me posicionar, então. Creio que escolhi a favor da rotina, por tornar a vida mais organizada e blábláblá... embora um pouco monótona, isso dependendo de muitos fatores, obviamente . Bem, não era a minha opinião de verdade, já que eu não tinha exatamente uma opinião formada sobre malefícios e benefícios da tal rotina. Mas isso não vem ao caso. Não sei bem o que vem ao caso agora, na verdade. Muitas coisas, acredito.
Aquela frase clichê é realmente verdade, não é? "A vida é feita de escolhas..." Eu sei quais escolhas eu fiz pra minha vida, mas não sei muito bem no que elas foram baseadas. A verdade é que eu detesto escolher. Detesto decidir, mas me sinto profundamente importante quando tomo alguma decisão. É como se a cada escolha eu crescesse um pouquinho. Mesmo assim, algumas vezes, ter que escolher é uma maldade. É como se fosse um castigo sabe-se lá de quem.
Escolher, decidir, escolher, decidir. Tudo se resume a isso, não é?
Mesmo quando se escolhe não se escolher se está escolhendo. (!?)
Eu decidi não escolher em muitos momentos da minha vida. Geralmente nos assuntos menos práticos, naqueles que dizem respeito a quem sou e a quem quero ou gostaria de ser.
Pensei muito antes de escolher me posicionar favorável á rotina naquela redação há algum tempinho. E continuo pensando muito antes de tomar certas decisões, mesmo que às vezes eu aja por impulso motivada principalmente por uma preguiça de pensar e ponderar.
E mesmo que o "e se..." martele por longos momentos na minha cabeça quando eu resolvo reavaliar algumas das minhas escolhas, é assim que vai continuar sendo.
Pensar, ponderar, pensar, ponderar, pensar e, por fim, decidir.



Hum, reparei que não tenho certeza se pontuei corretamente o título do texto abaixo. Não lembro direitinho essas regras de título e tal... se alguém souber me dar um veredito sobre o meu título, não se reprima!



Foto um tanto tosca, mas que captura um dos melhores momentos do meu dia. São muitos os que não entendem todo esse afeto pelos animais, em especial pelos meus cachorros. Tem gente que acha esquisito ficar apertando, cutucando, cheirando e esmagando seres não humanos. Tem gente que acha até mesmo doentio. Já ouvi coisas do tipo "você faz veterinária porque é uma pessoa carente". Não é isso e, mesmo que fosse, é muito mais que isso. Eu não sei descrever o quanto significa e o quanto me faz bem todo esse carinho. É apenas algo que eu sei e sinto e é uma das coisas mais definitivas da minha vida. Talvez seja realmente uma loucurinha, é verdade, mas dela não abro mão. E não acho que algo possa mudar isso.

Ela, contradição.


Ela ia e vinha com aquele vestidinho verde musgo desbotado de sempre. Nunca mudava, era sempre a mesma cena: eu ali parado, pensando em nada ou entretido em alguma conversa, e ela indo e vindo, passando por mim com um ar de displicência e carregando o meu olhar em seu encalço. Como és previsível! pensava eu... E como és irritantemente encantadora! Era exatamente isso, aquela garota de cabelo ruivo cintilante me fascinava de tal maneira a me deixar irritadiço por dias. E tudo nela era gritante demais... os olhos grandes como que num susto eterno, o nariz pequeno e delicadamente desenhado que causava um contraste enorme com o resto do rosto, a boca grande sempre disposta em um sorriso que era um misto de inocência e malícia... O gritante sempre me inquietou, sempre me causou uma certa ojeriza misturada com uma atração inexplicável... e todos os meus sentimentos e sentidos por ela eram uma contradição atrás da outra... A contradição era o meu vício, me levava a ciclos e mais ciclos nem um pouco saudáveis. Aquela garota ruiva do sorriso ingênuo-debochado personificava a contradição como mais ninguém era capaz. E eu sabia que, se num momento de fraqueza, deixasse ela entrar em minha vida, estaria perdido. Pessoas como ela não entravam na minha vida, era simples assim. E nada me era mais desconcertante do que admitir que eu não sabia lidar com alguém tão irradiante assim, logo eu, que sabia tantas coisas.


Irritadiço. Viciado. Perdido. Desconcertado. Eis o que sou hoje.
E ela continua indo e vindo com aquele vestidinho verde musgo desbotado de sempre.


"(...) como pode algo se originar do seu oposto, por exemplo, o racional do irracional, o sensível do morto, o lógico do ilógico, a contemplação desinteressada do desejo cobiçoso, a vida para o próximo do egoísmo, a verdade dos erros? "

sábado, fevereiro 9

Falling in love at a coffee shop.

- Uma boa notícia. E o nosso café bem forte e quente de sempre. Só isso.
Olhando pela janela do hotel imundo e barato, Marcele passava os dedos pela cortina mofada, tentando esconder sua aflição. Mexia incessantemente no cabelo, alisava a blusa, tocava, enojada, naquela cortina mal cosida que a escondia do mundo - agora tão sombrio - lá fora. Tinha acordado, naquela manhã fria e pouco aconchegante, com uma sensação esquisita (não era pressentimento ou intuição; Marcele não tinha dessas coisas), com uma angústia que revirava seu estômago e deixava seus olhos ardidos. E agora estava ali, num lugar que cheirava a mofo e a promiscuidade, sem entender ao certo em que ponto da sua vida tinha se permitido entrar naquela situação absurda e confusa. Teria sido no dia em que tropeçara na própria sorte e escutara sádicas gargalhadas ao seu redor? Teria sido naquele dia em que fizera um corte de cabelo ousado e mudara a maneira como as pessoas a viam? Ou a origem de tudo aquilo estava na sua falta de malícia ao interpretar olhares, gestos e expressões? Mas, como num susto, percebeu que a compreensão não lhe iria adiantar em nada, não agora que era tarde demais. Tudo o que desejava era que Caio chegasse logo trazendo um pouco de café e a notícia de que estava tudo bem ou, então, de que tudo ficaria bem. Mas nada ficou bem. Caio chegou transtornado, batendo portas e chutando móveis, gritando o inegável, que era um fracassado e que tinha perdido o controle da situação. Marcele chorava e se recusava a acreditar no óbvio. O plano tinha sido falho desde o início, mal discutido, mal visualizado no contexto da vida deles... Estavam ferrados, nada parecia mais exato do que isso. Quando a porta foi arrombada, eles lançaram um olhar cúmplice um ao outro, mas dessa vez o trato não seria cumprido. Marcele morreu cinco meses depois, sem nem ter sido julgada. Disseram para Caio que a causa da morte tinha sido complicações no parto, mas, na realidade, foi pura má vontade e negligência médica. Caio viveu mais alguns anos, chegou até mesmo a conhecer o filho, um menino que vivia machucado por tropeçar na própria sorte e que, numa birra de criança, insistia em mudar o corte de cabelo com uma obstinação assustadora pra uma criança que demonstrava não ter malícia alguma. O remorso foi matando Caio aos poucos. Tudo o que Marcele havia pedido naquele dia era uma boa notícia e um pouco de café. Ele havia voltado com uma má notícia; haviam sido, enfim, localizados e não tinham mais como fugir. E quanto ao café... bem, ele havia esquecido do maldito café. E, no contexto da vida deles, isso era imperdoável.

(Marcele e Caio se conheceram numa cafeteria no inverno de um ano qualquer. Naquele dia, tomaram várias xícaras de café bem forte e quente e saíram da cafeteria de mãos dadas, apaixonados. Alguns dias depois, na mesma cafeteria, fizeram um trato: não deixariam que nada nem ninguém interferisse no que sentiam um pelo outro, nem eles mesmos. Um dia, Caio captou malícia nos olhares, nos gestos e nas expressões de um certo rapaz para com Marcele e, cumprindo o trato, não deixou que esse rapaz interferisse no que eles sentiam. Com o tempo, Marcele e Caio perceberam que por mais que confiassem na solidez do amor deles, ameaças e tentações sempre existiriam. Então, toda vez que conheciam alguém potencialmente ameaçador, lançavam um olhar cúmplice um ao outro e cumpriam o trato firmado na cafeteria. Esse mesmo olhar foi repetido inúmeras vezes, sempre após uma xícara de café bem forte e quente, até o dia em que foram descobertos. No impulso de proteger o amor, deixaram vários rastros que contribuíram para que fossem facilmente identificados como os responsáveis por aqueles desaparecimentos e mortes que aterrorizavam a pequena cidade com uma cafeteria ao centro. Naquele hotel imundo e barato, Marcele se perguntou em que ponto de sua vida tudo aquilo tinha começado. A resposta está naquele inverno de um ano qualquer, Marcele.)


texto escrito em dezembro de um ano qualquer, entre uma xícara e outra de um café bem forte e quente, ao som de Landon Pigg - Falling in love at a coffee shop.





Ando meio sem inspiração para escrever. Hoje, numa intensidade maior que a costumeira, estou irritadiça. Várias pequenas coisas têm me aborrecido. Pequenos detalhes numa conversa, numa situação, num planejamento... detalhes pouco significantes, mas que hoje estão assumindo proporções maiores. E hoje aquelas malditas idéias fixas estão mais fixas em mim do que jamais estiveram (mentira, algumas quase tatuagem já se tornaram). São "intentos" tão mesquinhos e fúteis... tá, talvez não sejam isso tanto assim. Mas, no fim, não me acrescentam nada além de frustação e de uma certa sensação de estousendoridícula.


"soon I'll grow up and I won't even flinch at your name"

sábado, janeiro 26

O tal de pra sempre.

- Você disse "pra sempre".
- Hum?
- Você disse "vou te amar pra sempre".
- E daí? Eu te amo mesmo. Que conversa é essa, hein?
- Você não devia ter dito o pra sempre.
- Por que não? Não vai ser pra sempre, nós dois? É assim que tu pensa?
- Nós dois, mesmo que pra sempre, não significa amar pra sempre.
- O que está acontecendo, hein? Tu tá esquisita.
- Eu não acho que você vai me amar pra sempre.
- Por que diabos tu acha isso?
- Não sei bem ao certo... mas me soa tão absurdo amar alguém pra sempre! É pela vida toda, entende? E eu estou falando de amar mesmo, de sentir todas aquelas sensações esquisitas só de ver ou pensar na pessoa que se ama. Ninguém é tão especial assim!
- Então, pelo visto, tu não vai me amar pra sempre.
- Pelo visto não... quer dizer, talvez a gente fique juntos pra sempre. Você sempre vai ser importante pra mim porque você foi a única pessoa que me fez sentir todas aquelas sensações esquisitas misturadas de tal maneira a chegar a doer fisicamente. Mas, por mais que eu tente e insista comigo mesma, não sinto que o meu amor por você será eterno.
- Acho que tu tá confundindo amor com paixão, desejo. Realmente, daqui a alguns anos, a paixão entre nós já não vai ser a mesma... vai ter diminuído, eu imagino. Mas eu vou continuar te amando. Parece absurdo? Parece. Mas eu sei que é assim que vai ser.
- É, talvez... mas... hum... eu nunca disse "pra sempre".
- Por que tudo isso agora?
- Sei lá... é que você nunca tinha dito pra sempre, até ontem... e isso me assustou. Mas é tarde. Não leva muito em conta essas minhas bobagens, tá bem? Boa noite.
- Boa noite. Eu te amo... pra sempre.
- Também amo você.
- Não vai dizer pra sempre?
- Não.

Assim que amanheceu, ela já sabia, com uma certeza e confiança que nunca tivera antes na vida, o que fazer. Naquele dia mesmo, procurou um advogado para tratar da papelada e de todas as questões que envolvem um divórcio. Alegou que Marcos tinha prometido algo que jamais poderia cumprir, mesmo que pensasse que estava cumprindo. Quando contou num desabafo e numa falha tentativa de ser compreendida a história do "pra sempre" ao advogado, ele primeiro riu; depois, percebendo a expressão perturbada da cliente, aderiu ao ditado "com louco não se discute" e começou a preparar a papelada.
Eu, particularmente, não acho Maria tão louca assim.

sábado, janeiro 19

"Real ou irreal?"

Eu me assusto. Eu me perturbo. Eu me aborreço e tento não dar credibilidade a aquela sensação de passado longínquo. Tenho pavor a toda aquela indefinição, a toda aquela falta de certeza sobre a minha vida. Na verdade, são duas sensações distintas que, por si só, deixam-me atordoada. Juntas, elas são capazes de me colocar num estado nostalgia-medo-euforia para o qual eu ainda não encontrei nenhum remédio além de tentar dormir a qualquer custo. Elas raramente me invadem juntas, em um mesno dia ou em um mesmo momento. É difícil e talvez inútil explicá-las. A sensação mais comum, que é a de passado longínquo propriamente, não me causa mais nenhum desespero, apenas me deixa um pouco melancólica. Acontece de repente; sinto que fatos, situações e sentimentos herdados de tudo isso, vivenciados há pouco tempo, estão tão distantes a ponto de me porem em dúvida sobre sua autenticidade. Uma parte de mim tem uma certeza inabalável de que tudo fez, realmente, de algum modo - bom, ruim, ou insignificante -, parte da minha vida e do que sou. Mas há uma outra parte teimosa e traiçoeira que ri de mim como se eu fosse uma grande piada. Uma daquelas piadas ótimas, que no momento em que se vai passá-la adiante, tem-se um ataque de riso que causa ansiedade nos outros e que estraga um pouco a tal piada. E é justamente essa parte que causa um mal-estar que me faz pensar "aquilo aconteceu mesmo ou é fruto da minha imaginação?", então eu fico me perguntando até onde vai a minha sanidade. Na maioria das vezes eu respiro fundo e deixo a outra parte me convencer de que tudo aconteceu mesmo, de que eu existo. Mas, algumas vezes, eu preciso de provas, de algo concreto que me mostre que, sim, há um ano comecei algo totalmente novo, que fui em tal lugar sozinha ou com tais pessoas, que aqueles momentos engraçados-constrangedores-marcantes estão lá, em algum lugar da minha linha de tempo. É nessas horas que eu remexo nas minhas lembranças e a sensação de "real ou irreal" é substituída pela nostalgia. Ainda não aprendi a me agarrar nessas constatações da realidade e, eventualmente, preciso respirar fundo. A outra sensação é mais dominante, me toma por inteiro e só acontece sob certas circunstâncias que não convém elucidar aqui. Causa mais estrago, mais desespero, mais ressaca. Acho que a melhor - e, não necessariamente, a mais exata - palavra pra descrevê-la é incerteza. Uma incerteza cruel, incompreensível; uma droga, no sentido literal da palavra, em seus efeitos. E é realmente difícil me convencer da existência do que estou perguntando freneticamente se existe. "Eles são reais? Há algumas horas atrás, aquela conversa realmente existiu?Por que eu não tenho certeza se aconteceu mesmo?" Pra sair desse transe, só dormindo mesmo. Não sinto que tenha conseguido tornar compreensível essa segunda sensação. Creio que a primeira também não. É a falta de certeza sobre a existência real - e não imaginária ou embriagada - das coisas e das pessoas da própria vida. É o tipo de sensação que só sentindo para saber, por mais clichê que seja.

É a falta de solidez, tanto numa como na outra. Lembranças são imateriais. O abstrato, ao mesmo tempo que me assusta, me atrai. Acho que é por isso que, às vezes, eu escolho não dormir.



"Oh I'm not making a fool of myself,
I said oh I am making a fool of myself."

(mika - same jeans)