
sexta-feira, março 13
Unbelievable

quarta-feira, janeiro 7
G & C
"E então, algum dia você vai me dizer seu nome?"
"Só se você me fizer esquecer o seu."
Ele riu, coçou o queixo, enfiou os dedos entre mechas do meu cabelo, puxou de leve minha cabeça até que enfim eu o encarasse.
"E até quando faremos isso? Não sei o que farei no dia em que você não aparecer."
"Você continuará vindo aqui. O silêncio ainda vai estar aqui... e tudo o que ele traz também."
"Não será o mesmo. Você me anestesia."
Sustentei o olhar dele por mais alguns segundos. Ele sorriu de novo, indecifrável, respirando e perscrutando cada linha do meu rosto. Fiz o mesmo. Então ele soltou meu cabelo devagar, levantou, acendeu mais um cigarro, deu alguns passos e parou em pé longe de mim, uma mão no bolso, fora de meu alcance.
"Eu queria que você não dificultasse as coisas. Somos estranhos um para o outro... e está tudo bem assim."
"Não está tudo bem quando não sei nem o nome da única pessoa com quem tenho vontade de estar em dias como esse... as outras pessoas me parecem enjoadas de tão doces, de tão solícitas... mas você... cada frase é como uma bofetada na cara. Me sinto queimar a cada olhar seu... e é tudo tão gratuito, tão sem motivo... e só me faz querer estar contigo cada vez mais. "
Sentou-se bem a minha frente, pernas cruzadas, tragando e tragando sem parar.
"Isso ainda vai lhe fazer muito mal, sabia?"
"Eu sei. Mas não me preocupo com isso realmente. Pelo menos isso nunca tirou o meu sono."
"E o que tira o seu sono?"
"Não saber nada de você."
Passei a mão pelo meu pescoço, suspirei, arranquei um pouco de grama, cheirei-a de leve. Por fim, me coloquei ao lado dele, perto demais, repentinamente desajeita e perturbada pela vontade de chegar mais e mais perto ainda.
"Eu gosto de saber só o que é realmente importante. Nada de nome, sobrenome, idade, árvore genealógica... tudo isso é irrelevante quando eu o olho e sei que sinto algo sem precisar saber o que você estuda ou quão grande é a sua conta bancária. Não acho que você precise saber o mesmo de mim."
"Eu concordo com tudo isso, mas queria você no meu dia a dia. Queria poder dizer: essa é tal e é a ela que eu amo. Eu nem sei quem você é no mundo real, por assim dizer... e talvez seja realmente irrelevante. Eu sei que é, na verdade.... mas não sei se não há um motivo maior pra tudo isso... me instiga que você negue a si mesma."
Fiquei quieta. Ele apagou o cigarro, olhou-me com o canto dos olhos, suspirou, virou-se para mim, suspirou de novo.
"Eu a aborreço?"
Sorri de leve.
"Não."
"Que pena."
Riu alto, eu ri junto. Colocou as mãos nos meus ombros, no meu pescoço, parou em minhas orelhas, brincando distraidamente com elas.
"Não é hoje que saberei pelo menos seu nome, então?"
"Eu posso inventar um, se você quiser, mas não queria ter que fazer isso."
"Pois não faça".
Apertou os olhos, mordeu os lábios, revirou os bolsos procurando o maço.
"Está no bolso de dentro do casaco... e eu preciso ir embora."
"Eu sei. E eu não posso ir junto."
"Não."
Chutou uma pedra, chutou outra, arremessou a próxima.
"E eu, eu o aborreço?"
"Sim."
"Porque eu não faço romance?"
"Exatamente."
"Eu tenho meus motivos."
"Mas não a impedem de se machucar."
"Não, mas me impedem de saber coisas irrelevantes sobre você que aumentariam as lembranças, os nós na garganta..."
"Por que você acha que tudo acaba?"
"Porque acaba. Simples, doloroso e cruel assim."
Lançou-me um olhar duro que logo se abrandou. Nunca tinha me olhado assim antes. Pela primeira vez, senti um certo desatino e medo. Chegou perto demais, tragou, soltou a fumaça no meu rosto e não sorriu. Entrelaçou uma de minhas mãos, balançou-a no ar, me puxou para mais perto, colocou os lábios nos meus.
"Bem... talvez acabe mesmo."
E acabou. Ele não mais apareceu e eu continuo vindo aqui. O silêncio é o mesmo, mas ele não traz nada consigo. Não chorei nem lamentei; não faço romance. Machucou, mas as lembranças pertencem a um lugar único, aqui. E todo dia, sorrio, trago e solto fumaça no ar... sinto-me aborrecida... trago, solto fumaça no ar, não sorrio e vou embora pensando "Porque acabou. Simples, doloroso e cruel assim."
quinta-feira, dezembro 18
"tic - tac, time goes by...
"Quem acredita sempre alcança."
"Querer é poder."
"Dinheiro não traz felicidade."
Bem, eu poderia entrar agora no tema "o tempo passa rápido x quereres não plenos e pouco definidos e um tanto impossíveis", mas a verdade é que estou empolgada demais com um certo seriado e preciso desesperadamente vê-lo. Tenho aprendido muitos palavrões em inglês com ele, não que isso me vá ser de grande serventia. E o indefinível também me desgasta. Ultimamente tudo tem sido um grande e rançoso talvez e isso me irrita tanto que me dá alergia.
É, é.
Apenas queria escrever algo. Estava muito tempo sem postar nada aqui. Tenho escritos inacabados... cheios de talvez.
"Fugit irreparabile tempus". Nice, Shane!
segunda-feira, agosto 18
Apenas um parêntese mal empregado.
Atenção capturada por um livro.
Stella. Antha. Deirdre. Rowan.
Quase um vício.
domingo, agosto 3
Metade
Eu fiz aquilo porque tudo estava tão morno, entende? Você bem sabe como eu odeio o morno. Quente ou frio, pra mim nunca teve essa de morno, esse meio termo que debocha da minha cara por não ser nenhum nem outro. Ou você é ou você não é, foi assim que eu sempre pensei. Mentira, foi assim que eu sempre me exteriorizei... Mas hoje de manhã, como num clic, eu percebi que tenho vivido constantemente na corda bamba, morrendo de medo de cair para o lado errado. É como se aquele colchão que amortece a queda existisse em apenas um dos lados e, de lá de cima, eu não conseguisse ver nada lá embaixo, ou seja, cinqüenta por cento de chance de rachar a cabeça no chão cimentado contra cinqüenta por cento de chance de rir aliviado sobre um colchão de ar barato e azul médio, nem escuro nem claro. Metade, metade, metade, a odiosa metade. E eu não sabia que eu vivia na metade até hoje... e todos aqueles medos infundados que eu sempre tive, aqueles receios e temores indefinidos que me atormentam de lugar nenhum, bem, tudo isso é o medo que eu sinto de cair pro lado errado. É por isso que eu sempre odiei o meio termo sem saber ao certo o porquê de tamanho ódio; eu sempre estive, bem ali, no meio. E agora sei que sou morno, exatamente morno, metade quente, metade frio. Ah, por favor, não me venha com esse olhar convidativo agora, não vou lhe mostrar a minha metade quente. E não, não vou colocar a mão na sua testa pra ver se você está febril, eu sei muito bem ao que isso pode nos levar. Eu estou tentando lhe explicar por que fiz aquilo, eu preciso que você entenda, eu tenho necessidade que você me escute e tente entender... acho que eu nunca precisei tanto de algo na vida como preciso que você fique quietinha e sóbria agora e se dispa desse meio sorriso zombeteiro... nós somos iguais... você mesma disse isso naquela tarde lenta e oleosa em que comemos um cachorro quente estragado na esquina e passamos o resto do dia vomitando, lembra? É claro que você lembra, foi a primeira vez que você usou a estratégia de “Meu bem, acho que estou com febre. Veja se você acha o mesmo”. Ah, não venha me dizer que não é uma estratégia, uma tática. Eu até acredito que naquela tarde nojenta não tenha sido, mas em todas as outras vezes você sabe que foi uma atitude pervertida da sua parte. Tudo bem, vou continuar acreditando que você é a ingenuidade
(...)
Meu bem, o que eu entendi disso tudo é que o chá que você tomou hoje de manhã era alucinógeno. Eu lhe disse, meu querido, meus chás são assim, você sabe, mas você insistiu
Ele caiu da corda bamba alguns anos depois... e até hoje não sei pra qual lado ou qual metade era mais forte. Só sei que havia concreto lá embaixo, concreto pintado de azul médio. Que lástima. E que ironia, não? Minha mente borbulha com piadinhas e deboches só de pensar nisso. Bem, depois dessa, nunca mais ofereci meus chás a ninguém, nem mesmo a pessoas inteiras, não partidas ao meio. Pensei ter me ouvido rachar um dia desses, mas nada senti. Bem, deve ser culpa dos chás.
sexta-feira, julho 25
Um tanto pra chegar em nada.
Mas eu realmente aprecio acordar tarde (mesmo que isso me deixe com mais sono e com dores no corpo), não sentir dor de cabeça por não ter dormido tanto quanto meu organismo necessita (e, sim, ele necessita mais que oito horas de sono), passar uma hora ou mais sentada na rua ou no meu quarto, apenas ouvindo música, sem ficar pensando "tenho coisas a fazer, tenho coisas a fazer e não vai dar tempo". Enfim, eu gosto de ficar em casa nas férias, com as minhas coisas, com a minha preguiça. E pra eu criar coragem de me arrumar e sair de casa, bem, o programa dever ser realmente bom. Na verdade, não basta ser bom, porque até o bom me dá preguiça. Eu apenas preciso estar com vontade de sair da inércia.
E é assim que eu curto as minhas férias, dando um tempo a mim mesma, tirando uma soneca no meu casulo. E isso me faz muito bem, porque interagir continuamente com as pessoas e com o mundo em si me sufoca. E, sinceramente, se eu posso escolher não me sentir sufocada, por que eu escolheria algo diferente? Não é uma questão de "aproveitar a vida" porque, na minha concepção dessa expressão (eu realmente não gosto quando as palavras rimam nos meus textos. Não há um motivo exato para isso.), aproveitar a vida não significa, necessariamente, sair "saracotiando" por aí. Não mesmo.
Hum... mas tudo o que escrevi aí em cima fugiu um tanto do propósito inicial desse texto. "Um tanto", eis uma expressão que eu gosto e uso bastante. Mas não vem ao caso. Minha intenção era falar de algo que tenho feito nas minhas férias (na verdade, faço durante o ano todo, mas não com tanta freqüência) que é baixar músicas. E eu tenho descoberto bandas realmente boas (na minha visão - ou melhor - audição - que é o que importa, não é, porque se eu acho bom ou ótimo, pouco me importa que outros achem péssimo e de mau gosto, mesmo que esses outros sejam o mundo todo). E realmente, se eu tivesse que escolher entre nunca mais escutar música e a vida de alguns seres humanos, bem, eu escolheria a música, com alguma culpa, é bem verdade, mas que se desvaneceria facilmente ao ligar o rádio. É por isso que tenho cuidado um pouco mais da saúde dos meus ouvidos. Já me basta envelhecer e carregar junto a minha miopia. Ficar surda seria realmente catastrófico, mas não vou falar mais disso, senão, como diz minha mãe: "Os anjos dizem amém." Não que eu acredite nisso, mas é melhor prevenir do que remediar. Ok, não sei se esse ditado se encaixa bem aqui, mas com ele eu concordo.
Já me perdi de novo. A prolixidade e eu, um caso de amor. Daqueles ardentes.
Eu ia falar um pouco do que tenho escutado e descoberto, mas, no momento, não estou me sentindo muito disposta a fazer isso. É, não tô. Vou escutar "Lua" e lembrar que eu não vi o Conor Oberst. E isso fez com que eu me lamentasse um tanto. Um tanto mesmo.
E talvez mude o layout desse blog, cansei desse verde. Deixando bem claro, não cansei do verde, e sim desse verde. Porque, como alguns sabem, eu sou um abacate ambulante. Falando em abacate, meu abacateiro não se prestou a dar filhotinhos esse ano. E eu me recuso a comprar abacate, não tendo um abacateiro gigante no pátio. Minha mangueira também não dá mangas, mas essa nunca deu mesmo. Que coisa.
Tá, chega.
quinta-feira, junho 19
Apegos
(Hoje vai ser mais um dia daqueles. Mais um daqueles dias suspensos, em que acordo com a certeza de que serei convencida de que sou uma farsa. Então a farsa vai pôr mais uma pele de mentiras por cima de si e vai sair por aí, a esmo, misturando personagens e histórias.)
Alguém apertou o botão lá fora e um som ruiu por todo o apartamento. Não quero levantar, meu estômago dói, mas o botão parece que grudou na direção do ruído. Pés descalços, o chão melado do doce que derrubei e tive preguiça de limpar. Dificuldade de achar as chaves... sim, estão em cima da geladeira onde ele sempre deixava, não consegui me desapegar do hábito.
-Talvez você não tenha conseguido se desapegar de muitos hábitos, minha amiga. Só passei aqui pra ver como você está... e pelo visto está em pedaços. Já tomou os seus remédios hoje?
(Meds, meds, meds... you are not her but I care about you...)
A personagem mentiu que tudo já estava sendo devidamente metabolizado pelo seu frágil organismo. E após algumas palavras tolas, sozinha novamente fiquei. Sozinha comigo e com os apegos.
Acho que vou me colar na parede. Talvez estando toda lá, não sinta apenas minha cabeça no meio de uma prensa. E talvez - e só um talvez muito incerto - prensada na parede consiga eu esquecer de quem criou todos os meus apegos.
