quarta-feira, janeiro 7

G & C

Sorriu, tragou, soltou fumaça em meus cabelos. Enruguei a testa e ensaiei um gesto para mostrar que não estava gostando, mas ele sorriu de novo, tragou e soltou fumaça em meu rosto. Eu abanei o ar, abracei minhas pernas e apoei a cabeça nos joelhos, fitando qualquer coisa que não fosse ele. Ele deu uma meia risada, sentou do meu lado e apoiou a mão com o cigarro em meus joelhos. Fez meus tênis de cinzeiro, tragou mais algumas vezes, apagou o cigarro e passou os braços em volta de mim. Continuei fitando o horizonte, prendendo a respiração, me recusando a gostar daquele cheiro. Ele começou a alisar de leve minhas costas, cantarolando algo indecifrável com aquela voz que me arranhava. Fiquei imóvel, olhando as cinzas nos meus tênis, suas pernas ao lado das minhas.
"E então, algum dia você vai me dizer seu nome?"
"Só se você me fizer esquecer o seu."
Ele riu, coçou o queixo, enfiou os dedos entre mechas do meu cabelo, puxou de leve minha cabeça até que enfim eu o encarasse.
"E até quando faremos isso? Não sei o que farei no dia em que você não aparecer."
"Você continuará vindo aqui. O silêncio ainda vai estar aqui... e tudo o que ele traz também."
"Não será o mesmo. Você me anestesia."
Sustentei o olhar dele por mais alguns segundos. Ele sorriu de novo, indecifrável, respirando e perscrutando cada linha do meu rosto. Fiz o mesmo. Então ele soltou meu cabelo devagar, levantou, acendeu mais um cigarro, deu alguns passos e parou em pé longe de mim, uma mão no bolso, fora de meu alcance.
"Eu queria que você não dificultasse as coisas. Somos estranhos um para o outro... e está tudo bem assim."
"Não está tudo bem quando não sei nem o nome da única pessoa com quem tenho vontade de estar em dias como esse... as outras pessoas me parecem enjoadas de tão doces, de tão solícitas... mas você... cada frase é como uma bofetada na cara. Me sinto queimar a cada olhar seu... e é tudo tão gratuito, tão sem motivo... e só me faz querer estar contigo cada vez mais. "
Sentou-se bem a minha frente, pernas cruzadas, tragando e tragando sem parar.
"Isso ainda vai lhe fazer muito mal, sabia?"
"Eu sei. Mas não me preocupo com isso realmente. Pelo menos isso nunca tirou o meu sono."
"E o que tira o seu sono?"
"Não saber nada de você."
Passei a mão pelo meu pescoço, suspirei, arranquei um pouco de grama, cheirei-a de leve. Por fim, me coloquei ao lado dele, perto demais, repentinamente desajeita e perturbada pela vontade de chegar mais e mais perto ainda.
"Eu gosto de saber só o que é realmente importante. Nada de nome, sobrenome, idade, árvore genealógica... tudo isso é irrelevante quando eu o olho e sei que sinto algo sem precisar saber o que você estuda ou quão grande é a sua conta bancária. Não acho que você precise saber o mesmo de mim."
"Eu concordo com tudo isso, mas queria você no meu dia a dia. Queria poder dizer: essa é tal e é a ela que eu amo. Eu nem sei quem você é no mundo real, por assim dizer... e talvez seja realmente irrelevante. Eu sei que é, na verdade.... mas não sei se não há um motivo maior pra tudo isso... me instiga que você negue a si mesma."
Fiquei quieta. Ele apagou o cigarro, olhou-me com o canto dos olhos, suspirou, virou-se para mim, suspirou de novo.
"Eu a aborreço?"
Sorri de leve.
"Não."
"Que pena."
Riu alto, eu ri junto. Colocou as mãos nos meus ombros, no meu pescoço, parou em minhas orelhas, brincando distraidamente com elas.
"Não é hoje que saberei pelo menos seu nome, então?"
"Eu posso inventar um, se você quiser, mas não queria ter que fazer isso."
"Pois não faça".
Apertou os olhos, mordeu os lábios, revirou os bolsos procurando o maço.
"Está no bolso de dentro do casaco... e eu preciso ir embora."
"Eu sei. E eu não posso ir junto."
"Não."
Chutou uma pedra, chutou outra, arremessou a próxima.
"E eu, eu o aborreço?"
"Sim."
"Porque eu não faço romance?"
"Exatamente."
"Eu tenho meus motivos."
"Mas não a impedem de se machucar."
"Não, mas me impedem de saber coisas irrelevantes sobre você que aumentariam as lembranças, os nós na garganta..."
"Por que você acha que tudo acaba?"
"Porque acaba. Simples, doloroso e cruel assim."
Lançou-me um olhar duro que logo se abrandou. Nunca tinha me olhado assim antes. Pela primeira vez, senti um certo desatino e medo. Chegou perto demais, tragou, soltou a fumaça no meu rosto e não sorriu. Entrelaçou uma de minhas mãos, balançou-a no ar, me puxou para mais perto, colocou os lábios nos meus.
"Bem... talvez acabe mesmo."
E acabou. Ele não mais apareceu e eu continuo vindo aqui. O silêncio é o mesmo, mas ele não traz nada consigo. Não chorei nem lamentei; não faço romance. Machucou, mas as lembranças pertencem a um lugar único, aqui. E todo dia, sorrio, trago e solto fumaça no ar... sinto-me aborrecida... trago, solto fumaça no ar, não sorrio e vou embora pensando "Porque acabou. Simples, doloroso e cruel assim."

4 comentários:

Ivy disse...

um dos meus favoritos. ^^

paulocalvet disse...

Esses períodos curtos deixam a leitura ofegante, boa, quase asmática.
Meu globo ocular oscilou, de lá pra cá, ao ler-te. Só queria saber o desfecho, o desfecho

paulocalvet disse...

[ler foi bom].

Madalena disse...

E eu que me vi nela, que me coloquei no lugar dela, querendo estar diante dele e julgando prejudicial e odioso fumar, terminei de ler desejosa do moço, cansada, e tossindo pela fumaça e a falta de ar.